Vol.
43

129
2017
resena2

A geografia da saúde da população: evolução nos últimos 20 anos em Portugal continental

Paula Santana (coord.)

Coimbra, Portugal: Centro de Etudos em Geografia e Ordenamento do Território (cegot),
Unversidade de Coimbra, 2015. 191 págs.
http://dx.doi.org/10.17127/cegot/2015.gs

 

 

O tema abordado é estruturado em três capítulos, de forma a facilitar a compreensão da pesquisa e dos resultados apresentados. O primeiro capítulo faz um panorama relacionado aos objetivos, as metodologias das diferentes etapas, proporcionando um embasamento teórico. O segundo capítulo apresenta os resultados referentes à saúde e determinantes contextuais nos municípios contemplados pela pesquisa, localizando geograficamente os indicadores que compõem o Índice de Saúde da População (ines) em 2011. Por fim, o terceiro capítulo constata a integração da estrutura do índice e as dimensões para análise em saúde da população dos municípios portugueses.

A proposta apresentada no livro é o debate em relação aos indicadores de saúde sem perder o foco na dimensionalidade e multidisciplinariedade que se deve impor para discutir o tema. De modo diferencial propõe um instrumento coordenado pelo Centro de Estudos de Geografia e Ordenamento do Território com a proposta de facilitar a tomada de decisões pelos gestores, corroborando com outros pesquisadores como urbanistas, sanitaristas, sociólogos, geógrafos, ambientalistas e assumindo na teoria e na prática, que a saúde é interdependente de diferentes campos e ciências. Confirmando assim, que para ser saudável existem interrelações multivariadas claras e intrínsecas que vão desde onde o indivíduo mora, o ar que respira, a água que tem acesso, o que come, os acessos sociais, o contexto econômico e politico, a geografia, o planejamento da cidade, a mobilidade e acessibilidade, o ambiente físico, as interrelações que está sujeito, os seus comportamentos e atitudes. Medir o índice de saúde e constituir um com esta abordagem, multidisciplinar, transetorial, intersectorial e intrassectorial, é um desafio atraente em que instiga a conhecer um pouco mais do que está atras de um número que pode revelar um índice de saúde, independentemente do lugar ou continente em que estejamos.

O Projeto GeoHealthS (Geografia do Estado da Saúde) que iniciou em 2012 transcorrendo até 2015, com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e pelos Fundos feder através do programa compete (Programa Operacional Fatores de Competitividade), teve como um de seus frutos a elaboração deste livro. Resultados de pesquisas e estudos em torno dos indicadores de saúde onde de modo interdisciplinar, destacam o papel e a propriedade da geografia voltada para o desenvolvimento de ações que promovam a governança local, por meio do acesso e entendimento dos dados que traduzem diferentes realidades de saúde articulada com outras disciplinas e setores.

Uma das principais bases para o desenvolvimento das pesquisas relatadas neste livro, e que permanecem na mente de um pesquisador com a leitura deste, é o esforço da transversalidade, teorico e prático do conceito de saúde, bem como a importância de diferentes setores para se alcançar uma cidade que inclui, protege e promove a saúde através da disseminação de dados elaborados e organizados pela universidade, pelos governos e as lideranças regionais portugueses.

O objetivo do Projeto GeoHealthS foi avaliar de modo multidimensional a saúde portuguesa nos últimos 20 anos. Como resultado foi construído, aplicado e disponibilizado um Índice de Saúde da População (ines) por município, gerando uma ferramenta que pode ser utilizável pelos tomadores de decisões nas cidades. O estudo foi realizado em 278 municípios de Portugal Continental e as metodologias utilizadas para o processo de construção do ines, foram constituídas a partir de uma abordagem sociotécnica associando a metodologia multicriterial, a Measuring Attractiveness by a Categorical Based Evaluation Technique (macbeth) trabalhando com métodos participativos.

No primeiro momento foram identificados 177 indicadores que foram reduzidos a 45 com a aplicação do método Delphi resultando em 6 dimensões que integram o ines, de áreas que produzem preocupações para a saúde, como: socioeconómica, de ambiente físico, de estilos de vida, de cuidados de saúde, de mortalidade e de morbilidade, neste ponto revelando a multiplicidade de fatores que devem ser considerados para se gerir uma cidade. Podem-se citar alguns critérios, estudados nesta pesquisa de avaliação para cada dimensão, como a esperança de vida aos 65 anos e mortalidade por suicídio; acessos telefônicos, analfabetismo e solidão dos idosos; movimentos pendulares, tratamento de resíduos sólidos; proximidade dos cuidados à saúde; acesso aos cuidados farmacêuticos; excesso de peso; consumo de álcool. Estas multiplicidades de avaliação dos critérios indicam a importância de sua abordagem no planejamento urbano, para o processo de construção de políticas públicas que remetem a cidades saudáveis.

Os resultados apresentados revelam que a saúde dos portugueses nos últimos 20 anos (Portugal Continental) está evoluindo positivamente, bem como as desigualdades reduziram entre os municípios participantes do estudo e que o crescimento urbano e demográfico influenciam nos resultados do ines possibilitando a identificação dos municípios que necessitavam de intervenções sendo marcados estes, virtualmente, com um sinal de alerta.

Os resultados do ines foram divulgados na plataforma Websig saudemunicipio (plataforma tecnológica assente em sistemas de informação geográfica), desenvolvida com o objetivo de disponibilizar os dados da pesquisa de forma pública, sendo assim possível a avaliação dos resultados da aplicação do ines nos municípios portugueses no período de estudo. Estes dados são apresentados de forma geográfica, gráfica e alfanumérica, e podem ser consultados no link: http://saudemunicipio.uc.pt/

A análise multivariada dos 45 indicadores que formam o ines gerou o traçado de 4 (quatro) perfis de desempenho, sendo eles: áreas rurais frágeis, áreas potencialmente favoráveis à saúde, áreas marcadas negativamente pelos determinantes contextuais e áreas de urbanização intensiva com consequências positivas. Estes perfis-tipo possuem características análogas relacionadas ao desempenho dos indicadores no ano de 2011 que evidenciam um processo de transformação da ocupação do território urbano:

A geografia do Índice de Saúde da População coloca em evidência uma diversidade territorial, resultado de diferentes dinâmicas que ocorreram nos últimos 20 anos, influenciadas, por um lado, pela contínua atração da população ao litoral e pela densificação da construção e da população nas áreas metropolitanas e, por outro lado, pelo despovoamento de áreas periféricas afastadas das cidades de maior dimensão. (p. 106)

A possibilidade de traçar perfis-tipo contribui para a gestão do território urbano, podendo com esta análise identificar regiões que demandam de um maior investimento em políticas públicas voltadas para o planejamento urbano. Uma vez que o planejamento urbano pode ser considerado uma ferramenta para melhoria da qualidade de vida, conhecer e interpretar os dados múltiplos de uma cidade esclarece quais serão os desafios e as diretrizes necessárias para a elaboração, implementação e principalmente monitoramento de políticas públicas saudáveis, em nível micro, meso e macro, tanto para o governo como para a comunidade. Este processo permite assim dimensionar a organização de ações intersetoriais, como é reafirmado nas conclusões do estudo realizado pelo GeoHealthS:

O aprofundamento de alguns desses resultados podem, ainda, contribuir, não só para a identificação das áreas de intervenção prioritária em saúde, com o objetivo de adequar as intervenções em saúde às necessidades reais da população, mas também para avaliar o impacto dessas ações (respostas) na saúde e no bem-estar da população. (p. 108)

A partir do estudo dos resultados apresentados no livro, há a instigação de pesquisadores em buscar alternativas de aplicabilidade do instrumento, ines, (evidentemente que adequando-o as diferentes realidades locais), e utilizá-lo como referência para a ampliação e criação de novos instrumentos considerando os seus próprios resultados, que fazem a interrelação entre o entorno que gera a saúde e o núcleo do que é saúde estimulando o desenvolvimento de estudos que subsidiem as linhas de pesquisas em planejamento urbano e cidade saudável, assim buscando cada vez mais a convergências entre os temas.

O projeto GeoHealthS motivou o desenvolvimento da pesquisa na Europa intitulada “Euro-Healthy: Shaping european policies to promote health equity”, financiado pela Comissão Europeia, que parte do princípio que a promoção da saúde e a equidade em saúde são potencializadas por políticas públicas. Para confirmar essa teoria, será desenvolvido um índice de análise da saúde das regiões europeias e de 10 áreas metropolitanas, tendo em vista que a saúde é produto de diversos determinantes sociais, econômicos e territoriais. Esta nova aliança reafirma o valor da pesquisa realizada, e seu potencial como ferramenta auxiliadora na elaboração e aplicação de políticas públicas que buscam cidades mais saudáveis.

 

Ana Girotti-Sperandio

Universidade Estadual de Campinas, Campinas sp, Brasil

E-mail: amgspera@uol.com.br

 

Danielle Pereira-Montrezor

Universidade Estadual de Campinas, Campinas sp, Brasil

E-mail: dmontrezor.arq@gmail.com

 

 

1 Desenvolvido no âmbito do Projeto GeoHealthS - Geografia do Estado de Saúde – Uma aplicação do Índice de Saúde da População nos últimos 20 anos. Este trabalho foi financiado por Fundos feder através do Programa Operacional Factores de Competitividade – compete e por Fundos Nacionais através da fct – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, no âmbito do projeto ptdc/cs- geo/122566/2010. Disponível em: http://www.uc.pt/fluc/gigs/GeoHealthS/Geografia-saude-populacao-20anos-Portugal.pdf

 

vol 43 | no 129 | mayo 2017 | pp. 311-314 | reseñas | ©EURE

issn impreso 0250-7161 | issn digital 0717-6236

Girotti-Sperandio, A., & Pereira-Montrezor, D. (2017). La geografía de la salud de la población. Evolución en los últimos veinte años en Portugal continental. Revista EURE - Revista De Estudios Urbano Regionales, 43(129).